sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Ao Casual

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O som de meus passos apressados indo de encontro ao chão molhado eram abafados pelo som da chuva furiosa que caía sobre minha cabeça. Meus cabelos, já há muito ensopados, grudavam em meu rosto e me deixavam momentaneamente cega até que outro vento ruidoso os jogasse para longe. Respirando irregularmente, parei embaixo de um telhado , me espremendo entre as diversas pessoas procurando abrigo como eu. Meus dedos tremiam ao procurar no bolso o pedaço de papel com o endereço de meu destino. Eu era péssima em localização, e, apesar de ter ido lá ainda hoje mais cedo, não conseguia me lembrar da aparência e muito menos da direção do pequeno café onde eu tinha arrumado um emprego de uma noite para conseguir o dinheiro que usaria para comprar o pão do dia seguinte.
A ponta dos dedos molhados esbarraram na tinta da caneta, que começou a borrar, mas, por sorte, ainda consegui ler. Virei-me para a mulher ao meu lado e perguntei educadamente se ela conhecia o lugar, mas antes que ela pudesse responder, mais alguma pessoas correram para entrar debaixo do telhado, e eu acabei sendo jogada para fora, direto para a chuva novamente.
Bufei, frustrada, e pisquei para tentar visualizar algo através da água. Senti uma onda de alívio ao reconhecer a floricultura onde eu havia comprado um buquê está manhã, pouco antes de entrar no bendito café. Felizmente, presumindo que eu seguisse o caminho certo, deveria estar perto de lá.
Ao correr pisando em poças e muita lama, quase sendo atropelada de tempos em tempos por motoristas inconvenientes, e sentindo minhas botas novas provando-se vagabundas pela quantidade de água que alcançava e gelava meus pés, perguntei-me se estava assim tão desesperada por dinheiro para enfrentar uma situação como essa apenas por alguns trocados. E eu não me refiro a situação da chuva, mas sim ao trabalho que eu tinha aceitado.
Eram quase dez e meia da manhã quando entrei no pequeno café, vazio, procurando um banheiro e talvez uma xícara de chá, e acabei me encontrando em uma situação desconfortável em que um homem e uma mulher no balcão brigavam e gritavam escadalosamente. Quando me viram, a mulher virou-se e correu para dentro da cozinha, enquanto o homem encarou-me indiferente e anotou meu pedido antes de sumir também. Esqueci-me de perguntar onde era o banheiro, então saí para procurar.
O lugar era bem rústico, com decoração simplória e mesas de madeira clara e desgastada, com uma humilde margarida dentro de um vaso no centro de cada uma. Um palco baixo estava no centro, com diversos objetos cobertos por panos brancos, e um lindo piano de caldas, preto, reluzindo à luz amarelada das lâmpadas.
Meus olhos voltaram-se para o balcão, a procura de algum dos atendentes, de qualquer alma viva sequer, que reprimisse meu impulso de subir no palco e sentar-me no piano para tocar. Eu havia feito aulas quando era ainda criança, mas, apesar de ter imensa vontade de aprender, minha professora era um tanto má, e batia em meus dedos se eu errasse a melodia. Desisti logo na terceira aula. Podia ser curiosa, mas nunca fui tolerante a dor.
Um desejo de criança me levou a sentar no banquinho e encostar meus dedos nas teclas. Toquei algumas, ouvindo o som ecoar pelas paredes, tomando conta do lugar, e deslizei minhas mãos pelas notas brancas, tocando melodias desconhecidas, desafinadas.
Então senti que devia parar e me virei, onde encontrei o homem do balcão com uma xícara fumegante, encarando-me com uma expressão quase aliviada. “Toca?” perguntou ele, entregando minha xícara. Antes que eu pudesse responder, ele já fazia a proposta. “Você caiu do céu! É exatamente o que precisávamos! Hoje à noite. Às sete. Venha tocar e eu lhe pago o quanto desejar.”
Talvez fosse o frio na barriga por ter acabado de ser demitida, ou o desespero de não receber um salário no fim dom mês; talvez até mesmo o desejo de provar para minha antiga professora que eu podia tocar sem errar; seja lá qual fosse o motivo, aceitei, e estabelecemos um valor. Eu deveria usar um traje de gala, e estar lá às sete. Nos despedimos, e eu só fui perceber com o que havia concordado ao chegar no meu apartamento.
Eu não sabia tocar; normalmente as pessoas aprendem a tocar antes de se apresentarem.
Em minhas horas restantes, procurei partituras fáceis e rápidas, e consegui um repertório pobre, mas era o máximo que podia fazer. Não tinha treinado tampouco, mas eu não tinha um piano então não havia como. Eu teria que correr o risco de ler notas pouco conhecidas e torcer para que elas pelo menos soassem bem.
Senti um alívio ao reconhecer as mesas com margaridas ao chegar em frente ao café. O alívio se foi ao ver que o lugar estava cheio de pessoas, e o palco estava iluminado, esperando um artista que não chegaria. Abri meu casaco para sentir o vestido fino e chique que usava, e torci para que não estivesse muito molhado. Se eu iria me humilhar na frente dessas pessoas, queria parecer decente, pelo menos.
Respirei fundo antes de abrir a porta do café, marchando de cabeça erguida para o palco.

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