terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Devaneios Teatrais

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Beautiful Eastern Europe: Hungarian State Opera House ~ Budapest, Hungary

O palco era grande, iluminado e colorido por cortinas vinho escuras, que caiam pesadamente seguradas por cordas beges, feias, impróprias. Um bando de crianças andava desconfortavelmente lá em cima, olhando umas para as outras como se analisassem a concorrência, enquanto Dona Elsa, a gorda diretora do teatro, comandava-as.
Eu estava sentada na plateia, observando a cena com meus fones de ouvido no volume máximo, quando um garoto sentou-se ao meu lado. Sabia que ele era do mesmo ano que eu, mas não da mesma sala. Seus olhos estavam cobertos por uma estranha camada de cabelos encaracolados, e eu me virei, esperando que ele explicasse porque tinha se sentado ao meu lado, enquanto havia um auditório inteiro vazio e ele podia se sentar em qualquer outro lugar. Mas ele não me encarou. Decidi ignorá-lo, e me virei novamente para o palco.
Já era o final da tarde, e eu estava ali apenas esperando meu irmão mais novo, Lucas, sair do coral da escola para que pudéssemos ir juntos para casa. Normalmente, os ensaios eram hilários, com muita gritaria desafinada. Hoje, eu estava desanimada, e queria somente chegar em casa. O dia já tinha sido péssimo, e a cantoria era apenas mais uma de suas desgraças.
Encarei o caderno que segurava nas mãos, esperando que uma solução para os meus problemas se apresentasse ali, como que por mágica. Faltava apenas uma semana para meu teste final de teatro, e a tarefa era apresentar uma peça completa, bem estruturada, já apresentando os detalhes de toda a produção. Apesar de normalmente ser uma pessoa inventiva, minha imaginação tinha escolhido aquela semana para se ausentar, e eu não conseguia criar um enredo, e muito menos elaborar uma peça inteira.
Enquanto observava meu irmão cantar seu solo, pensando em como os pais não deviam incentivar os filhos a fazerem coisas nas quais não eram bons, considerei escrever uma daquelas peças românticas, em que a moça encontra o moço e eles vivem felizes para sempre depois de alguns conflitos. Mas fiquei envergonhada por ao menos ter considerando essa possibilidade. Romances eram para pessoas com bloqueio criativo, pensei. E então me lembrei de que aquela era exatamente eu: uma inútil artista com bloqueio criativo.
O menino ainda estava ao meu lado. Era silencioso, misterioso. Eu nem sabia seu nome, mas sabia que havia estudado com ele a vida toda. Era um pouco vergonhoso, na verdade. Inclinei-me discretamente para o lado, e consegui ver a etiqueta em seu caderno. Armando Pereira, li. Um nome estranho que correspondia ao dono, pensei. Decidi que aquele seria o nome do personagem principal de minha peça, e me orgulhei por ter começado a me mover e a escrever no papel vazio.
Voltei ao meu lugar e o descrevi: um menino estranho, de cabelos longos e encaracolados que cobriam a face, deixando-o com um ar misterioso, perigoso e inalcançável. Então notei que havia uma tatuagem em seu pulso. Apesar de não conseguir ver direito, enxerguei duas armas apontando uma para a outra, formando um triângulo, e números aleatórios de cabeça para baixo.
Comecei a perder-me em devaneios enquanto encarava descaradamente o garoto, imaginando mil possibilidades de histórias. Suas roupas desleixadas, sujas, demonstravam falta de uma figura feminina. Mas a postura inferior, nada máscula, revelava também a falta de uma presença masculina. Talvez seus pais tivessem morrido em um naufrágio. Talvez ele morasse com sua tia. Provavelmente ela era solteirona, e saía aos sábados com o rosto entupido de maquiagem e as pernas a mostra para tentar arrumar um pretendente. Ela deve trabalhar muito, pensei. Não é fácil manter por si só um garoto adolescente. Ela mal deve saber o que ele faz enquanto ela trabalha, enquanto sai em busca de algo animador em sua vida monótona. Ele provavelmente é revoltado, louco por vingar-se seja lá de quem tenha lhe dado vida tão injusta, tão indigna. Ele definitivamente mantém armas em seu poder, o que não explicaria propriamente sua tatuagem, mas talvez algo que ele tenha feito. Talvez ele mesmo tenha matado os pais. Talvez planeje matar a tia. Talvez esteja planejando matar a mim, logo agora, nesse auditório vazio pois todas as crianças já desceram do palco e estão nos camarins em busca de suas mochilas para finalmente poderem ir tranquilamente para seus adorados lares onde estarão seguras, quentes e bem alimentadas...
- Com licença. – dei um pulo ao ouvir a voz do garoto pela primeira vez. Ele finalmente me olhava nos olhos e eu podia jurar ter visto sua mão se mover para dentro do casaco, em busca das armas que o caracterizavam, com certeza. – Posso ajudar?
Eu provavelmente o tinha encarado durando todos aqueles minutos. Ele ia me matar, definitivamente.
- Ah. – murmurei inteligentemente. – Só estava interessada na sua tatuagem.
Ele sorriu um sorriso macabro, digno de assassino.
- Fiz no acampamento. – explicou ele.
Arqueei minhas sobrancelhas.
-Acampamento?- Acampamento para treinamento em assassinato?
- Sim, no acampamento de números. A data em baixo marca o dia em que fui o único a resolver o desafio do final de verão.
Reparei então que as duas armas eram, na verdade, dois esquadros. Algo em mim murchou, provavelmente a parte detetive aventureira que desejava uma real história para contar, uma história de sangue e batalhas em um mundo injusto.
- Ah, certo. Legal.
Meu irmão então chegou e nós fomos para casa. Armando Pereira ficou para trás enquanto eu me afastava, mas eu estava suficientemente satisfeita. Finalmente, tinha meu enredo. Ele podia não ser verdadeiro, mas havia tempos que eu havia aceitado que, as vezes, a ficção é melhor que a realidade.



6 comentários:

  1. Nossa, adorei, você escreve muuuito bem e acho que deveria investir nisso? Hmmm esse texto é só ficção mesmo?! hahaha
    Adorei o blog
    Beijão,
    www.garotaroyal.blogspot.com

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    1. Muuuito obrigada! :) E sim, é só ficção haha

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  2. Estou chocada, muito bom de ler, eu queria mais e mais, é intrigante ao mesmo tempo. É seu talento nato.
    Parabéns!!!
    Mil beijos
    ♡♡♡♡♡♡♡♡♡♥♥♥♥♥♥

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  3. Gostei bastante.Continua escrevendo e sempre guarde todos os rascunhos.Eles as vezes parecem bobos,porem mais tarde podem se tornar interessantes e podem ser aperfeiçoados

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